quinta-feira, 17 de março de 2011

Ćevapi, o que de melhor se come nos Balcãs.

Das melhores recordações da viagem.

Jaquinzinhos e um copo de vinho, no melhor onde se possa comer: uma tasca croata.
Nos próximos seis meses, Al-Jazeera fará parte do meu vocabulário, leituras e discussões. Motivação é a palavra certa para descrever o que sinto em relação à minha futura tese.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A mais pequena caixinha



Queria comprar alguma coisa barata, algo suficientemente especial para o qual pudesse um dia mais tarde olhar e lembrar-me desta viagem. Entrei numa minúscula loja em Sarajevo, com duas mesas à porta repletas de pulseiras, espelhos, caixas de cigarros, brincos. As mesmas coisas em quase todas as lojas. Resolvi entrar. Um casal novo ocupava a única mesa baixa dentro da loja, como se fosse um espaço para crianças de tão  baixas e pequenas que eram as cadeiras. Uma miudinha loura pintava desenhos sentada ao colo do pai. A loja tinha várias prateleiras de vidro, preenchidas com mais colares, caixas, pulseiras. No meio de uma das primeiras prateleiras para onde olhei, vi aquilo que viria a ser a melhor e quase única compra durante os onze dias de viagem. Uma caixinha quadrada, com pouco mais de um centímetro de lado. Baixinha, de metal, toda trabalhada e na tampa uma pedrinha branca. Não hesitei e trouxe-a. Custou-me três marcos, algo com um euro e meio. Embrulharam-na num saquinho azul, brilhante, igualmente pequeno. E para que não se estragasse enfiei o saquinho no meu porta-moedas. A minha caixinha  - para a qual olhei várias vezes durante a viagem – foi motivo de discussão sobre como as mulheres gostam das coisas que menos utilidade têm. Fui questionada por todos os membros masculinos da turma sobre o que é que eu tencionava pôr lá dentro. Até que alguém me ajudou a provar que cabem perfeitamente uns dez brincos dos pequeninos. Foi a compra que mais feliz me fez nos últimos tempos. E já expliquei que, para mim, tem carácter suficiente para ser peça central e única da decoração de uma grande mesa.

A máquina de costura

Era como se estivesse em Lisboa. As pessoas olham umas para as outras na rua, senti-me próxima, não estranha. Foi o último dia em Sarajevo e o cansaço da semana inteira de emoções, opiniões e debates encaminhou-nos a todos para a parte antiga da cidade, o bairro turco. Ponto central na cidade, muito perto do nosso hotel, repleto de pequenas lojas e cafés, vivo de manhã à noite. Dia de sol, com a mesma luz que encanta quem visita Lisboa num dia de esplanadas, passeios, conversas leves e caras aquecidas. Fomo-nos todos cruzando nas ruas, entrando e saindo das lojas, partilhando o que comprávamos, até nos termos sentado numa esplanada, chão de pedras redondas, mesas de plástico verdes, numa espécie de pátio interior. Bebemos café ao sol.
Como o cansaço me evade das conversas, dei conta das  lojas que nos rodeavam. Entre elas, uma modista. Um espaço minúsculo com uma montra com quadrados de vidro divididos por madeira. A porta era também de madeira. Cheguei mais perto, só uma senhora lá estava, sentada em frente a uma máquina de costura antiga, com os óculos na ponta do nariz. Entrei, ouvi o som ritmado da agulha e perguntei se podia tirar uma fotografia à máquina de costura. Lembro-me que a minha avó tinha uma em casa, era motivo de curiosidade pois o tampo da mesa virava ao contrário e a máquina desaparecia. Ela encolheu os ombros. ‘Não?’, perguntei-lhe. Voltou a encolher os ombros. Baixei-me e tirei uma foto à máquina de costura. ‘Français?’, ouvi. Disse que sim, levando-a a pedir-me a razão para querer uma fotografia. Expliquei-lhe que a minha avó tinha tido uma máquina daquelas em casa. Num instante ela mudou, sorriu amavelmente, acenou com a cabeça e disse que estivesse à vontade. Perguntou que idade tinha a minha avó e continuou o trabalho dela, fazendo conscientemente parte da fotografia. Mostrei-lhe as fotografias, e ela abanou a cabeça. ‘É assim que vejo como estou a ficar velha’, disse em francês. A conversa foi-se fazendo aos poucos, relembrando palavras à medida que se tornavam necessárias. Entendíamo-nos entre frases cortadas, aprendíamos o sentido das meias palavras. Disse-me ter duas filhas, uma delas estudou gestão na Malásia. Expliquei-lhe que estudava e trabalhava, e o telefone dela tocou. Manteve-se sentada na cadeira, de frente para a máquina de costura antiga de ferro verde. Percebi que tinha estado a coser um blazer castanho. Enquanto ela falava ao telefone, reparei em todo o restante espaço. Um pequeno recanto para experimentar a roupa com uma cortina aberta, um espelho alto numa parede, uma prateleira com livros amontoados, caixas de plástico com linhas de várias cores, um móvel muito pequeno encostado a uma parede com dois napperons de renda e um grande rádio ligado, embora só se ouvisse conversa e não música. Havia ainda um vestido pendurado na parede e uma única flor de pé alto dentro de um copo. No meio da loja estava um aquecedor a gás. Ouvi-a a dizer o que me pareceu ser ‘turista’ e fiquei com a ideia que estaria a falar de mim ao telefone. Nesse mesmo instante, passou-me o telemóvel para a minha mão, pedindo que falasse com a filha. Sem sequer saber em que língua deveria falar, agarrei no telefone e, do outro lado, uma rapariga falou-me em inglês. ‘A minha mãe trabalha aí e disse-me que estavas a tirar fotografias. Pediu-me que lhe enviasses as fotografias, se for possível’. Deu-me o email, que apontei num bocado de papel amarelo, parte de um grande rolo utilizado nas costuras da senhora. A partir desse momento, pousou o blazer castanho, deixou o trabalho e alargou-se a conversa.
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Hesitou por uns momentos antes de se levantar, mas levantou-se, dando dois passos até tirar a carteira. Abriu-a e mostrou-me a fotografia da filha com quem falei, sem dúvida parecida com a mãe, e lamentou não ter uma fotografia da outra filha, sem aprofundar a razão. Mostrou-me o marido numa fotografia onde apareciam os dois lado a lado e ainda uma só com a cara da mãe. Nasceu na Albânia e viveu no Kosovo. Trabalhou numa organização internacional, como economista, onde aprendeu a falar francês com as colegas de trabalho. ‘Entretanto nunca mais falei e perdi o francês’. Veio viver para a Bósnia e Herzegovina, para Grbavica, um bairro em Sarajevo, onde vivia a mãe e onde viriam a estar durante a guerra. Falou lentamente, num esforço para se lembrar das palavras certas, fechando os olhos de cada vez que a memória a impedia de se expressar. Eu também reduzia o meu vocabulário a quase nada, apenas o essencial. Encostou os dois cotovelos na mesa e apoiou a cara nas mãos. ‘Tivemos fome e frio, as minhas filhas tinham seis e oito anos, evitávamos sair de casa’, disse-me sobre o tempo em que viveu a guerra em Sarajevo. ‘Nunca mais voltei a Grbavica, nunca consegui’. Perguntei o que achava da cidade hoje. Sorriu, levou as mãos aos olhos, levantou-se novamente e aproximou-se da prateleira com os livros. Tirou um  e encostou-se a uma mesa  a folheá-lo. Não percebi e continuei a tentar absorver tudo o que envolvia aquele espaço, até ela ter fechado o livro com força e eu ter percebido que era um dicionário bónsio-francês.‘Vie! Ma vie c’est Sarajevo’. E não era preciso dizer mais. Acrescentou no entanto como a situação é difícil, ‘l’économie est morte’, como a esperança de melhoria é nenhuma e como o melhor a fazer é ‘continuar a trabalhar para esquecer os problemas’. Lembrei como parecia tão simpático ter aquela enorme montra, podendo ver as pessoas a passar. ‘Tenho sempre o rádio ligado numa estação croata, é a minha companhia’. Contou-me ainda como a blusa de seda branca na montra tinha mais de sessenta anos, tinha sido apenas usada pela mãe dela. Disse-lhe que voltaria em breve a Sarajevo e que passaria ali. ‘Vejo-a daqui a quatro meses então, é?’. Confirmei e abri a porta para me ir embora, depois de agradecer. Ela disse-me como tinha sido interessante conversarmos e, pela última vez, fechou os olhos para se lembrar de uma palavra. Esperei e, com a intensidade de quem encontra o que procurava, ouvi-a dizer: ‘Merci beaucoup!’.



terça-feira, 8 de março de 2011

Quanto menos tiveres na vida, mais depressa foges


'Somos conhecidos pelo nosso humor', disse um realizador bósnio, à roda dos trinta e poucos anos, depois de termos visto o documentário que fez. 'Dizia-se que não morreríamos se tivéssemos tabaco e café. Mas a verdade é que no primeiro mês do cerco a Sarajevo não houve piadas'. Contou-nos a primeira piada que ele  ouviu. 'Iam dois amigos a andar numa rua e um sniper disparou acertando-lhe na orelha que caiu uns metros à frente. Em vez de fugir, ele andou à procura da orelha, enquanto que o amigo lhe dizia que fugisse e não desse importância à orelha. 'Não é pela orelha, é pelo cigarro que eu tinha atrás dela', respondeu-lhe'. Durante três horas partilhámos todos o mesmo espaço, um muito pequeno café no centro da capital, preenchido com cadeiras e mesas baixas, belíssimas fotografias nas paredes. A descontracção de quem não se conhece mas que, pela idade e pelo ambiente, sente ter partilhado os últimos anos de vida. A normalidade de bósnios que serão amigos e clientes assíduos, que entram e saem do balcão com cervejas, que nos encomendam pizzas. Sentamo-nos todos, entre cadeiras e almofadas no chão, apagam-se as luzes e durante uma hora vemos um documentário feito por dois irmãos gémeos bósnios que viveram e vivem em Sarajevo. O cheiro a tabaco é intenso, o fumo entranha-se nas roupas e a sombra do fumo vê-se na luz que o projector direcciona para a tela. Uma tela muito improvisada, tudo improvisado, sentimo-nos como se já tivessemos estado juntos. O documentário junta gravações feitas por gente que filmou o seu dia-a-dia durante o cerco à cidade. Videoletters, como ele lhes chama. Pessoas que filmaram as vidas para comprovarem que ainda viviam.  Uma hora de imagens não chocantes, mas emocionalmente profundas, juntando humor e ironia. 'Aprendi que o melhor na vida é não ter nada. Assim foge-se mais depressa. E todo o dinheiro que conseguirem juntar, gastem-no em viagens', dizia um senhor já velho, ironizando sobre a sua vida, rindo-se do que dizia mas, na verdade, reflectindo a realidade.
'Ia numa rua e ouvi alguém gritar. Fui dar com um rapaz com as mãos atadas, pediu-me que o ajudasse a libertar-se. Perguntei-lhe como e ele disse-me que lhe desse com um bastão na cabeça com toda a força que conseguisse. Era a melhor forma de ser livre. Eu agarrei no bastão, bati-lhe na cabeça e ele caiu. Percebi depois que tinha sido um grande escritor', contava um rapaz, sentado numa cadeira no meio da rua e com uma carpete pendurado numa árvore, como pano de fundo.
Terminado o filme, ficámos a conversar no café. Podia ser um café em Lisboa. Mas desta vez não partilhávamos os desejos de viajar ou de conhecer o mundo, partilhávamos uma vontade de estar ali, de perceber o momento presente. Partilhámos opiniões sobre como perceber a guerra que 'parece não ter acabado', as divisões alimentadas todos os dias, a sensação de pouca esperança aliada à vontade de ficar, de discutir, sustentada pelas emoções e recordações que poucos percebem mas que durante anos foram partilhadas por quem viveu em Sarajevo. Como quando ele nos disse que a cada cidade onde vai imagina como seria se a guerra tivesse sido ali. Ou como anda nas ruas e se lembra que, durante o cerco, ninguém sabia a que velocidade andar. 'Se alguém levasse um tiro porque ia devagar, diriam 'ia devagar, estava à espera do quê?'. Se fosse depressa alguém diria 'ele ia a correr, não podia esperar outra coisa'. Por causa disso, nunca andávamos da mesma forma, corríamos e abrandávamos. Assim, se levássemos um tiro, diríamos que era porque tinha de acontecer'.
Regressei ao frio quando abri a porta do café. Percebi que me apaixonei pela história deste país, pelas profundas dificuldades que existem em encontrar soluções. Pelas pessoas, por uma geração nova que carrega uma guerra às costas, que fuma até não poder mais, que lê, que vive o passado no presente. Procurámos um táxi, saímos para ir ao supermercado e, de repente, apeteceu-me ficar por cá. 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Antes de me ir embora por umas semanas, tive direito a um copo de vinho branco francês, fishpie (receita de Jamie Oliver, segundo comunicado), mini-couves de bruxelas, um brownie e duas colheradas de gelado de baunilha. Acompanhado por uma vela e uma jarra com flores brancas. Pronta para viajar.

Uma nova partida

Foi uma das razões que me fizeram escolher vir para cá. Ir para lá das discussões sobre as dezenas de teorias, lutando contra conceitos e escavando as falhas de cada uma, sem conseguir soluções ou alternativas extraordinariamente eficazes. Ir para lá dos momentos em que, honestamente, dou comigo a olhar pela janela da sala, depois de já ter entendido a teoria, de a termos descascado, a termos aplicado, e continuarem a esventrá-la sem qualquer aplicação concreta na realidade. Abandono a sala e deixo-me seguir pelos meus pensamentos, até me dirigirem uma pergunta e o sangue subir-me à cabeça num segundo. Reconheço a importância das teorias e há um inteiro mundo que eu desconhecia. É possível perceber melhor a realidade, comparar situações, posicionarmo-nos algures nas teorias, criar as nossas próprias teorias, comparando países, culturas, peso das religiões. Sem esquecer como a percepção que se tem do que nos rodeia é tão diferente em cada canto do mundo. Nas discussões nas aulas percebo como por vezes a minha visão está tão longe da pessoa sentada ao meu lado. De como se pode ter um entendimento completamente oposto dos mesmos acontecimentos, reacções e atitudes. De como para um é perfeitamente aceitável que se imponha uma perspectiva externa do mundo, do que é justo, de quais são os direitos humanos, do que deve ser um país, um governo, um sistema. Muitas vezes sem sequer ter parado para pensar que é possível que, do outro lado do mundo, a visão do que é o mundo seja diferente. Outras vezes, tendo plena consciência disso e fazendo-o para sua própria estabilidade.
Mas então chega o momento em que lidamos com a realidade. Parto para Sarajevo no sábado, para analisar os media, a sua organização, influência e obstáculos durante e após a guerra. Partindo da experiência de jornalistas que, também eles, têm a sua visão sobre o que é o jornalismo, qual foi e qual é o seu papel. Jornalistas que viveram o jornalismo de uma forma diferente do que alguma vez eu conseguirei viver, que o tiveram como ponto central e único durante um tempo. 
Volto a sentir o prazer das vésperas de partir para um novo país, sem conhecer nada nem ninguém. Com encontros marcados por email com pessoas que por enquanto apenas imagino como são. Fazer e refazer a mala, rever as próximas duas semanas e pensar de que é que posso precisar. Comprar um bloco novo, um pacote de rebuçados (os mais baratos de marca branca do supermercado revelaram-se perfeitos, embrulhados em pedaços de papel branco), juntar os meus  papéis todos, rever apontamentos, apontar todos os contactos, saltar aos alfarrabistas e pedir-lhes livros.
E lá vou eu, tentar perceber melhor as pessoas, como se vêem nas suas vidas e nos seus países, naquilo que me sinto mais à vontade para fazer. Aplicando as teorias que entretanto humanizei, tentando humanizar as que me pareceram inúteis e criando as minhas, aprendendo a lidar com o mundo, fora do meu mundo.

E ela chegou ao nosso jardim.

Snowdrops, as primeiras flores depois de acabar a neve.

 





quarta-feira, 2 de março de 2011

Há 15 anos ainda existia


'... the building was set afire by incendiary bullets [...] people could see the paper's twin towers in flames on the late evening news. No one expected a paper out of that flame. But we moved the newsroom to an atomic bomb shelter underneath the building. [...] Undeterred, the paper hit the streets early the next morning, causing joy [...]. With no regular newsprint supply, we reduced the press run and the size and number of pages, printing during the worst periods just 3500 copies in tabloid format. With telephone connections down, we installed radio equipment and communicated stories through a network of ham radio operators. With no electricity, we needed 100 liters of diesel fuel to type and print for just four hours a day, using candles the rest of the time. With no drivers or kiosks to distribute and sell the paper, journalists themselves volunteered to drive the paper through the sniper-covered streets and to sell it in their neighborhoods.'

Kemal Kurspahic, in Prime Time Crime