Em conversa com um militar americano soube que, pela adrenalina, é possível querer voltar para uma guerra. Voluntariar-se para ser enviado: não pela primeira vez, mas pela segunda.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Já tenho 5p
Percebi hoje que há pessoas, funcionários de uma qualquer câmara, que passam o dia a apanhar o menor lixo que haja no chão. Refiro-me a palitos, mini-beatas ou qualquer bolinha de papel enrolada durante a espera numa fila. E apanham esses pormenores com tanto cuidado e detalhe, que me foi difícil acreditar que aquilo estivesse a acontecer. Com esse detalhe só tenho apanhado moedas de 1p. São incrivelmente brilhantes contra o chão de pedra, perfeitamente visíveis, mas ninguém as apanha. Eu já tenho 5p.
Dia de arranque
Hoje é dia de arranque de um novo ciclo para muita gente. Seja em novos trabalhos, em novos cursos ou em novos projectos. Hoje, partilhamos a sensação de novidade.
domingo, 26 de setembro de 2010
Experiência gastronómica
Antes de mais, há que dizer: ver chefes de cozinha a trabalhar ao longo de três anos acalmou em mim o ódio pela cozinha. Sosseguei a contrariedade que sentia ao aproximar-me do fogão, sobretudo para refeições quotidianas. Passou a fase do atum com esparguete, ambos secos e rapidamente cozinhados: aqui decidi aplicar os conhecimentos que fui adquirindo. Até porque comer na rua é caro. Basta o preço de uma cerveja, de vez em quando.
Portanto, o sítio que conheço melhor até agora é o supermercado. Sei que fecha à meia-noite, o que é fabuloso (nem em Portugal). Dou comigo a folhear livros de receitas e a pedir a chefes que me mandem qualquer sugestão de vez em quando. Obviamente não tenciono fazer um bisque de crustáceos ou um macarron de chocolate.
Mas hoje tive oportunidade de provar uma delícia escocesa: haggis. Estômago de carneiro recheado com as vísceras, ligadas com farinha de aveia. Ora vejamos na versão inglesa que nos oferece a wikipedia:
Haggis is a dish containing sheep's pluck (heart, liver and lungs), minced with onion, oatmeal, suet, spices, and salt, mixed with stock, and traditionally simmered in the animal's stomach for approximately three hours.
Posso dizer que é bom, soube-me bem. Comi há umas quatro horas e estou impecável. Verei amanhã.

Portanto, o sítio que conheço melhor até agora é o supermercado. Sei que fecha à meia-noite, o que é fabuloso (nem em Portugal). Dou comigo a folhear livros de receitas e a pedir a chefes que me mandem qualquer sugestão de vez em quando. Obviamente não tenciono fazer um bisque de crustáceos ou um macarron de chocolate.
Mas hoje tive oportunidade de provar uma delícia escocesa: haggis. Estômago de carneiro recheado com as vísceras, ligadas com farinha de aveia. Ora vejamos na versão inglesa que nos oferece a wikipedia:
Haggis is a dish containing sheep's pluck (heart, liver and lungs), minced with onion, oatmeal, suet, spices, and salt, mixed with stock, and traditionally simmered in the animal's stomach for approximately three hours.
Posso dizer que é bom, soube-me bem. Comi há umas quatro horas e estou impecável. Verei amanhã.

Confirma-se
A lesma é um animal doméstico. Ao terceiro dia, volta a estar no tapete da cozinha, onde fica a dar voltas - imagino eu - a noite toda. Quando contei isto a uma rapariga, tive de referir-me a um caracol mas que não tem a sua casa às costas, para explicar a que animal me referia. Neste momento, só me falta saber o nome. E saber onde é que a lesma passa o seu dia...
Pantufões
E porque tudo aqui acontece num segundo: recebi umas pantufas brancas de penas da dona da casa. Comentei ontem que os meus pés estão sempre gelados e que aguardo, literalmente, a chegada do correio com um grande caixote de roupa, incluindo os meus pantufões. Parece que a senhora me percebeu bem. Trouxe-me uns pantufões brancos. E explicou-me que eram do marido de uma senhora que há uma meia hora esteve a conversar com ela à porta de casa. A senhora está num dia mau, disse-me. Mora aqui umas casas à frente e o marido morreu há pouco tempo. Ela veio cá dar as pantufas dele. Ou, corrigindo, pantufas que ele nunca chegou a usar. Confesso: são adoráveis.
Descoberta
Há casamentos na Índia com mil convidados, que duram vários dias porque há muitas cerimónias dedicadas a diferentes deuses. E, mais, a família do noivo tem de arranjar 31 vestidos para o primeiro mês de casamento da noiva. Para além dos diamantes e outras jóias. Mais ainda: há dias em que acontecem milhares de casamentos, cada um com milhares de convidados.
Domestic Slug
E ao terceiro dia conseguirei perceber se a lesma que vi as duas últimas noites no tapete da cozinha é um animal de estimação.
A casa existe
Tudo começa no momento em que se quer um bocadinho mais. É bom, mas é aí que começa tudo. Inicia-se a luta contra o que é habitual, o que é suposto. E há duas opções: ou se é engolido, ou se arrisca. Arrisquei. E, no momento seguinte, estava no aeroporto à espera de um voo com destino a Edimburgo. Com uma mala enviada para o porão, com 18 kg (máximo: 20), porque depois de tantas revisões da roupa que poderia trazer acabei por não trazer quase nada. Cinco horas depois de ter chegado ao aeroporto, entro no avião. Ao meu lado, uma senhora portuguesa passou o tempo a fazer palavras cruzadas. Na única vez em que olhei com mais detalhe para o que ela estava a fazer - lamento tê-lo feito - percebi que ela no fundo procurava palavras como "bróculos", "batata", "cebolinho", numa enchente de letras misturadas.
Chegada a Edimburgo, três horas depois do suposto, não tinha transporte nenhum à minha espera como combinado. A primeira pessoa com quem falei, e que espero voltar a ver no aeroporto, disse-me que a senhora que eu procurava estava "aué" e não "auei". Encarei o meu primeiro desafio: percebê-los.
Encarei o segundo desafio: esperar duas horas sentada. O motorista do 'táxi comunitário' veio ter comigo: um senhor com 1.90m, idêntico ao Robbie Coltrane, ou seja, o Hagrid do Harry Potter. De seguida: uma viagem de 1h10, noite escura, chuva, trânsito ao contrário. Um miúdo americano, sentado atrás de mim, conseguiu aproveitar esse tempo para beber tudo o que podia. Chegámos a Saint Andrews, cidade perdida no meio do nada (ou assim fiquei eu com a impressão): era meia noite de quinta-feira. Deixaram-me à porta da casa onde iria ficar as seis semanas seguintes. Primeiro alívio: o número 17 existia. Terceiro desafio: estaria a senhora a dormir? Chovia, o frio entranhava-se e sentia-me a tremer. Toquei à porta e nada, bati à porta e nada, telefonei e ouvi o telefone tocar, o que me aliviou, mas ninguém abria. Até que aparece a senhora com quem até então apenas tinha trocado emails. Enrolada no seu robe. Consegui pedir desculpa e explicar, em meias palavras, como tinha sido um dia infernal.
Carreguei os 18Kg de mala pelas escadas acima. Escadas alcatifadas, com estantes de livros. Pouco mais conseguia ver. O quarto: adorável. Uma escrivaninha antiga em frente a uma grande janela, com vista para a rua e para uma casa antiga, de pedra (tem um brasão onde diz 1561). Tenho vista para uma enorme chaminé onde pousam uns passarões de vez em quando e, incrivelmente, há borboletas que vêm contra a minha janela.
Cidade de muitas histórias que vão surgindo devagar. Há alfarrabistas no meio da estrada. Entre Sócrates e Platão, há postais antigos e fotografias dos antepassados escoceses, com grandes vestimentas. Os edifícios da universidade são antigos, de pedra, majestosos. E as aberturas do ano lectivo incluem um escocês de kilt, a tocar gaita-de-foles, que aparece à frente dos directores de cada faculdade. Temos de estar em pé e vemo-los entrar, em fila, com enormes capas aos ompros, de diferentes cores. Os discursos têm todos um toque de humor e há professores que são apresentados como "pessoas que estão na universidade há 150 anos".
É também local de muitas conversas, de onde saem belíssimas experiências. E amanhã começam as aulas.
Chegada a Edimburgo, três horas depois do suposto, não tinha transporte nenhum à minha espera como combinado. A primeira pessoa com quem falei, e que espero voltar a ver no aeroporto, disse-me que a senhora que eu procurava estava "aué" e não "auei". Encarei o meu primeiro desafio: percebê-los.
Encarei o segundo desafio: esperar duas horas sentada. O motorista do 'táxi comunitário' veio ter comigo: um senhor com 1.90m, idêntico ao Robbie Coltrane, ou seja, o Hagrid do Harry Potter. De seguida: uma viagem de 1h10, noite escura, chuva, trânsito ao contrário. Um miúdo americano, sentado atrás de mim, conseguiu aproveitar esse tempo para beber tudo o que podia. Chegámos a Saint Andrews, cidade perdida no meio do nada (ou assim fiquei eu com a impressão): era meia noite de quinta-feira. Deixaram-me à porta da casa onde iria ficar as seis semanas seguintes. Primeiro alívio: o número 17 existia. Terceiro desafio: estaria a senhora a dormir? Chovia, o frio entranhava-se e sentia-me a tremer. Toquei à porta e nada, bati à porta e nada, telefonei e ouvi o telefone tocar, o que me aliviou, mas ninguém abria. Até que aparece a senhora com quem até então apenas tinha trocado emails. Enrolada no seu robe. Consegui pedir desculpa e explicar, em meias palavras, como tinha sido um dia infernal.
Carreguei os 18Kg de mala pelas escadas acima. Escadas alcatifadas, com estantes de livros. Pouco mais conseguia ver. O quarto: adorável. Uma escrivaninha antiga em frente a uma grande janela, com vista para a rua e para uma casa antiga, de pedra (tem um brasão onde diz 1561). Tenho vista para uma enorme chaminé onde pousam uns passarões de vez em quando e, incrivelmente, há borboletas que vêm contra a minha janela.
Cidade de muitas histórias que vão surgindo devagar. Há alfarrabistas no meio da estrada. Entre Sócrates e Platão, há postais antigos e fotografias dos antepassados escoceses, com grandes vestimentas. Os edifícios da universidade são antigos, de pedra, majestosos. E as aberturas do ano lectivo incluem um escocês de kilt, a tocar gaita-de-foles, que aparece à frente dos directores de cada faculdade. Temos de estar em pé e vemo-los entrar, em fila, com enormes capas aos ompros, de diferentes cores. Os discursos têm todos um toque de humor e há professores que são apresentados como "pessoas que estão na universidade há 150 anos".
É também local de muitas conversas, de onde saem belíssimas experiências. E amanhã começam as aulas.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Categoria de países esquisitos
Numa passagem pelo notário, a poucos dias de partir, tive a alegria de encontrar um espaço novo, envidraçado e agradavelmente sem ninguém. Foi essa a melhor sensação. Dedicar uma manhã a cada um dos serviços públicos - para muitas vezes ter de lá voltar no dia seguinte- foi o que mais me aconteceu nas últimas semanas. Mas um notário em Torres Vedras é um local que podemos encontrar praticamente vazio. Valeu pela simpatia, pelo rápido atendimento - ainda que tenha acabado por lá ficar uma hora - e pelo incentivo. Concluo que há uma qualquer empatia em relação a quem decide sair do país. Seja por pena, seja por valorização. Seja ainda uma certa protecção maternal, uma consciência por ter já estado em situação semelhante ou, apenas, por imaginar que alguém próximo possa estar na mesma situação. Uma compreensão e quase uma espécie de receio perante a partida breve de alguém, sobretudo para um sítio desconhecido.
Ao ponto da senhora do notário, antes de eu agradecer e sair, me ter perguntado se ia estudar para fora. Disse-lhe que sim. "Vai para um país esquisito?", perguntou-me. Por segundos, parei para pensar qual seria a categoria dos países esquisitos. E no instante a seguir pensei em como tudo pode afinal ser tão relativo quando na cabeça de alguém existem países esquisitos. Conclui que deveriam ser países dos quais não sabe o nome, aqueles de que falam na televisão. Disse-lhe que não, que não era um dos países esquisitos. Só saberei se lhe respondi correctamente se um dia lá voltar e perguntar quais são os países esquisitos. Mas senti nela um certo alívio. Agradeci -lhe pela preocupação.
Antes de eu sair do notário, a senhora gritou 'Boa sorte!'. Ao olhar para trás, vi que ela tinha a mão direita fechada, com o polegar a apontar para o tecto. E nesse momento, a dois dias de sair de Portugal, percebi que uma senhora de um notário me lançou um "fixe".
Ao ponto da senhora do notário, antes de eu agradecer e sair, me ter perguntado se ia estudar para fora. Disse-lhe que sim. "Vai para um país esquisito?", perguntou-me. Por segundos, parei para pensar qual seria a categoria dos países esquisitos. E no instante a seguir pensei em como tudo pode afinal ser tão relativo quando na cabeça de alguém existem países esquisitos. Conclui que deveriam ser países dos quais não sabe o nome, aqueles de que falam na televisão. Disse-lhe que não, que não era um dos países esquisitos. Só saberei se lhe respondi correctamente se um dia lá voltar e perguntar quais são os países esquisitos. Mas senti nela um certo alívio. Agradeci -lhe pela preocupação.
Antes de eu sair do notário, a senhora gritou 'Boa sorte!'. Ao olhar para trás, vi que ela tinha a mão direita fechada, com o polegar a apontar para o tecto. E nesse momento, a dois dias de sair de Portugal, percebi que uma senhora de um notário me lançou um "fixe".
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